Tati Aponte

Tem noites que Ela gosta(ria) de ser Gata

*Por Edinha Rojas

Com passos precisos caminhava extremamente desconfiada e curiosa, sem ruídos. Seus olhos oblíquos dotados de uma percepção aguçada a faziam margear elegantemente os objetos do apartamento térreo.

Carente de atenção, sentia falta de um dono e tentava socializar para saciar sua sede de companhia. O macho, que já dominava o ambiente, reconhecia o odor, já registrado, dos feromônios da fêmea e, seu instinto natural de caça o levava à sua direção.

Ela, que antes costumava ignorá-lo,

agora dedicava a ele toda a sua atenção.

Sem recuar, deixava que passeasse entre as suas pernas enquanto esfregava a língua áspera em toda a espinha dorsal do bichano, cujos pelos eriçaram pouco a pouco até que estivessem todos de pé.

Ardiloso e cheio de habilidades,

mordera a parte superior de seu pescoço, imobilizando-a rapidamente e girando o corpo dela 180 graus.

A felina, molhada, inclinava o rabo para cima e, dessa vez, era ela que sentia cada papila dele sobre sua pelagem macia durante a penetração.

Pata em cima de pata.

O par copulava com variações de energia, vezes os movimentos eram mais calmos, outras mais agitados, mas sempre acompanhados da troca de miados, cuja partitura sem ensaio ia do tom grave e selvagem dele à resposta sonora tímida e aguda dela.

O sangue fazia turbulência no sistema circulatório,

subia pela aorta e fazia com que ele ronronasse de prazer, ao mesmo tempo em que, seu corpo robusto, pesava mais sobre o dela. Seu órgão não castrado adentrava cada vez mais a fundo, fazendo com que a gata escorregasse e arranhasse o chão com as unhas.

Em seguida, era possível sentir suas gargantas vibrarem sincronizadamente de tanta satisfação.

Endorfina liberada.

Ela, vagarosamente virava-se de barriga para cima e ele, com graciosidade, lambia seu rosto com o olhar fixo, como se pelo menos naquele momento se importasse com ela. Mas, ambos intuíram que esse final era apenas um teaser falso de um romance que jamais aconteceria.

E, então, ela se limpou, ele ergueu o corpo e cada um se esquivou para um canto.

Nenhum dos dois gostava de caminhar em linha reta,

por isso, fizeram curvas que distinguiram seus caminhos.

Porém, silenciosamente, estes forasteiros da solidão insinuaram nas entrelinhas, que talvez, a mistura de uma outra noite chuvosa, o vazio de uma casa solitária e o desejo selvagem, pudesse fazer suas pegadas trilharem novamente na mesma direção.

E, quem sabe, faiscarem novamente na companhia dos astros noturnos até arderem com os raios do Sol.

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