Tati Aponte

Por que SIM ao filme “A Filosofia na Alcova”?

Primeiro de tudo, pra quem não sabe é bom explicar que o teatro/cinema que o Satyros faz NÃO É CONVENCIONAL!

Caso você seja aquela pessoa que acha que a arte deve representar o “belo” tradicional, certamente você ficará incomodado com a arte transgressora dos Satyros.

A beleza deles não é aquela vista em revistas e novelas.

Ela está nas entrelinhas, nas falas, nas provocações…

E por isso mesmo é uma arte exigente, ela requer que o espectador não seja passivo.

Quem assiste a uma peça do grupo precisa dar um passo à frente para entendê-los.

Precisa se despir de tudo que é convencional e entender que o que está sendo representado no palco não tem a MENOR intenção de ofender, mas apenas provocar reflexão.

Cenas perturbadoras (muitas vezes grotescas) com nudez e violência são delicadamente tecidas com diálogos e trilha sonora que te levam para outra dimensão.

É claro, se você se permitir a viver esta experiência.

Who is Marquês de Sade e por que encená-lo?

A Filosofia na Alcova” é uma obra de mesmo nome escrita por Marquês de Sade e descoberta em 1795.

Sade, pra quem não sabe ou pouco conhece, era um nobre francês, escritor, dramaturgo e libertino.

Fazia duras críticas ao governo e a sociedade francesa por não se alinhar com nenhum ideal propagado como correto pelos poderosos da época: nem a religião (Igreja), nem a moral (políticos, filósofos, pensadores).

Amoral e anárquico, Marquês de Sade provocava a ordem pública ao afirmar que os “bons costumes” eram, apenas, um forma de controle da população.

E ele ia além.

Denunciava poderosos, pois afirmava que estes praticavam exatamente o contrário do que pregavam, sejam religiosos, políticos ou membros de famílias abastadas…

Na suas obras que falam de depravação sexual e moral sempre estão presentes representantes destes setores da sociedade.

A hipocrisia social sempre foi foi uma temática interessante e queridinha dos artistas em geral.

No entanto, no momento político atual, com a crise que vivemos nos últimos anos, a obra de Sade nunca esteve tão atual como agora.

O filme chega as salas de cinema num momento de efervescência política ímpar!

Caiu como uma luva!

A necessária alcova de Juliette

Eugénie é uma adolescente de 16 anos e virgem.

Quem cuidou de sua criação, num primeiro momento, foi sua mãe.

Quando cresceu, foi internada em um convento, tal como todas as outras meninas da época.

O pai de Eugénie, um devasso, acha que a menina deve “conhecer as verdades do mundo” e entrega a Juliette a função de mostrar à Eugénie a vida tal como ela.

Dolmancé, um amigo Juliette, também participa da doutrinação da jovem Eugénie.

O aprendizado de Eugénie vai além do erotismo, com discursos fortes, politizados e diálogos inteligentes, Eugénie vai descobrindo que viver em obediência aos valores morais nada tem de vantajoso.

Após o período de aprendizado, a mãe da garota chega à alcova de Juliette para tentar resgatá-la das mãos dos libertinos.

Nesse momento, ela é controlada por Dolmancé e Juliette como uma vítima perfeita, e a última aula é finalmente dada.

Não é pra qualquer um…

Como eu disse lá em cima, a obra não é pra qualquer um assistir.

Seja honesto consigo para entender se você quer ou não quer conhecer a arte feita pelo grupo Os Satyros.

O que eu gosto muito é que a nudez deles não é sem propósito, tampouco é a pornografia machista que estamos acostumados.

O nu masculino é igualmente retratado como nu feminino, não há glamour, mas apenas a verdade dos corpos ali expostas!

E esta dissociação isso é incrível no país do Carnaval!

É impossível sair “normal” depois de ver “A Filosofia na Alcova“.

Diretores e elenco durante a coletiva de imprensa

Eu acho a obra agressiva, mas muito necessária!

Em alguns momentos do filme eu fechei os olhos e apenas ouvi os diálogos, pois as cenas estavam fortes demais.

Mas este é um recurso que eu uso sempre nas peças deles, foi uma forma que encontrei de continuar apreciando o trabalho do grupo dentro dos meus limites.

E respeito muito o trabalho desenvolvido pelo Ivam Cabral e pelo Rodolfo García Vasquez ao longo dos anos.

Eles são diretores teatrais que fizeram muito pela arte e pela cidade de São Paulo.

Por fim, quero fazer uma menção linda aos atores deste espetáculo, em especial à memória de Phedra de Córdoba, atriz e travesti que foi carinhosamente acolhida pelo grupo e alcançou o sucesso dos palcos paulistanos, sendo uma das atrizes mais respeitadas da cidade de São Paulo. Ela faleceu no início de 2016.

Mas todo meu amor à Henrique Mello, Stephane Sousa, Hugo Godinho, Bel Friósi, Felipe Moretti e Suzana Muniz

Que sejam eternos!


Filosofia na Alcova

Data de lançamento 23 de novembro de 2017 (1h 16min)
Direção: Ivam Cabral, Rodolfo García Vázquez
Elenco: Henrique Mello, Stephane Sousa, Phedra de Córdoba, Hugo Godinho, Bel Friósi, Felipe Moretti e Suzana Muniz
Gêneros Drama, Erótico

 

 

 

 

 

 

 

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