Tati Aponte

Blanche e Sabina formam Círes, de “Por Isso Fui Embora”

Eu sempre tive um pouco de problema em gostar de personagens femininas desequilibradas, que enchem a cara a noite toda, dormem com vários homens, falam palavrão pelos cotovelos, ficam desafiadoras e”interessantes” quando estão fora de si e que mantêm-se assim até o final da história, pois se apresentadas sóbrias não seriam cativantes da mesma forma.

Eu sei que existe algo de poético na embriaguez, e geralmente estas personagens carregam nas costas a responsabilidade de falar sobre assuntos importantes e filosóficos, mas quase sempre elas caem no clichê e no vazio, daí me cansam e me irritam!

Veja bem pessoal, longe de mim ser contra a mulher beber e/ou ficar bêbada, não é isso que eu estou pontuando aqui, mesmo porque eu já bebi tanto nesta vida (e ainda bebo) que seria ridículo eu condenar qualquer postura desta natureza, além disso sou a favor da gente fazer o que quiser quando bem entender, e sou adepta da máxima frase de Simone Beauvoir ” Que nada nos defina”.

Se a personagem é bem trabalhada psicologicamente eu viro fã, como é o caso da Blanche Dubois de “Um Bonde Chamado Desejo” – quem leu o livro ou viu a peça lembra que a bichinha era alcoólatra – e como o Tenesse Willians era um escritor fantástico, ele criou uma mulher tão complexa, tão cheia de sonhos e, ao mesmo tempo tão fracassada que a Blanche é perfeita dentro das suas imperfeições, deste modo a personagem não caiu no óbvio e ganhou meu coração.

Além disso, para se ter uma mulher interessante ela não precisa estar constantemente fora de si. Uma das minhas personagens favoritas da literatura é a Sabina de ” A Insustentável Leveza do Ser”.

Sexual, vibrante, ameaçadora, voluptosa, libidinosa, ela não se prende a valores morais e não vê problema algum em ter vários amantes, inclusive o protagonista do livro, que é casado. Sabina é forte, interessante, e, sobretudo honesta consigo mesma ao sair de cena quando um de seus amantes propõe relacionamento sério.

Martin e Círes por Joaquim Lopes e Camila Lucciola

E por que eu estou aqui escrevendo sobre Blanche e Sabina se o título do texto é sobre a Círes de “Por Isso Fui Embora”?

Porque “Por Isso Fui Embora” é uma peça de teatro que eu assisti semana passada cuja personagem que mais me chamou atenção foi a Círes (Camila Lucciola), que tinha todos os ingredientes pra eu detestá-la, mas que sai de lá querendo tê-la como amiga. Bêbada, desbocada, visceral, ela estava pronta pra receber todo o meu desprezo.

Quando eu li a sinopse da peça eu fiquei curiosíssima, daí eu recebi o convite da Renata Costa, produtora da peça, pra assistir e lá fui eu.

A peça conta a história de Martin (Joaquim Lopes) um fotógrafo que vive um casamento morno com Pérola (Juliana Knust). O casamento já entrou em uma fase rotineira, sem emoção alguma.

Alimentar o peixe do aquário e ver Discovery na TV é a única coisa animada que fazem juntos.

No entanto, a Pérola AMA esta rotina, AMA esta segurança, AMA e este estilo de vida que é tudo aquilo que sempre sonhou, se tivesse um filho ela estaria mais feliz ainda! Só que um filho não está dentro dos planos do maridão.

O interessante é que na maior parte da peça Pérola se movimenta pelo palco em cima de um patins (que é lindo, por sinal, já quero um todo cheio de glitter como o dela). A ideia é mostrar ao público que Pérola sempre está se equilibrando na corda bamba da vida, pisando em ovos para manter a imagem da mulher perfeita.

Já Martin quer emoção e, cansado da monotonia conjugal, sai uma noite para beber e conhece Círes, a mulher lépida e faceira da noite que eu, geralmente, detestaria.

Círes é desbocada e se sente livre por fazer aquilo que quer, porém muito desta liberdade vem acompanhada de uma vida sem nenhum equilíbrio, pois ela vive as emoções em seus extremos. Círes passa várias noites no bar de Joke (Flavio Rocha), que é seu parceiro mais frequente e dono do bar que ela mais frequenta.

Quando Martin aparece na sua vida, no início parece que é mais um dentre tantos outros.

Acontece que os encontros furtivos com Martin acabam levando os sentimentos de Círes  para outro patamar e, diferente de Sabina (aquela lá da Insustentável Leveza do Ser) que sabia seus limites, e se aproximando da fraqueza de Blanche (aquela do Bonde Chamado Desejo) ela se vê apaixonada por Martin e fragilizada pelo sentimento que tanto rejeita.

Pérola e seus patins, por Juliana Knust

Acho que foi AÍ que a personagem me ganhou…Toda aquela pose de “femme fatale” cai por terra quando ela se ajoelha aos pés de Martin e pede a mesma vida que ele tem com Pérola. Esta cena foi o ápice pra mim, dentro de uma peça cheia de cenas boas.

De antemão já aviso – NÃO SE TRATA DE UMA PEÇA FÁCIL. Os diálogos são densos e fortes. O que confere uma leveza ao espetáculo é a cenografia e o figurino, que são primorosos, e a trilha sonora, que é um verdadeiro bálsamo para os ouvidos. Destaque para a versão de “Sound of Silence”  reproduzida na peça e cantada pelas atrizes do elenco.

As luzes também são lindas e a cena do jogo de ping pong está até agora na minha cabeça. Genial!

Enfim, se você está em São Paulo e está afim de uma peça “booooua”, eles vão ficar em cartaz até  dia 16 de julho no Teatro Vivo aqui em São Paulo.

Aproveitem!

Rê Costa, obrigada pela gentileza do convite, foi demais!!!

 

 

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24 Comentários:
  1. Mayara Pereira

    Amei o post, gosto muito de peça e fiquei curiosa pra vê, e uma história interessante .

  2. Isadora Soares

    Eu achei super interessante. E algo capaz de nos cativar a ponto de mexer com uma opinião formada é difícil! Sabe se essa peça vem para o RJ?

  3. Viviane Santos

    A peça parece ser super interessante, pena que não moro em São Paulo. É torcer pra ela vir para o Rio de Janeiro.

  4. Raphaella machado

    Adorei o post,e a peça parece ser muito bacana espero que venha para Campinas porque eu realmente adorei o contexto dela !

  5. Camila

    Não conhecia ainda essa peça bem interessante essa história pena que só está em cartaz em São Paulo quando chegar aqui no rio vou assistir.

  6. Lucimar da Silva Moreira

    Tati a peça é bastante interessante, pois fala da relação de um casal em que a relação está assim meio morna entre eles. Pelo que li aqui a peça é ótima, muito cativante, quem mora aí em São Paulo não pode deixar de ver essa peça, bjs.

  7. Mayar Nascimento

    Poxa,fiquei super interessada em assistir,rezando para vir pro Rio de Janeiro.

  8. Made in Lua

    Depois de ler o seu texto fique com vontade de ver, faz tempo que não vou ao teatro,sabe se passaram por Salvador?

  9. Lu Rosa

    Oi Tati! Tudo bem?
    Concordo com você a respeito das personagens femininas. Nas aulas de literatura na faculdade também me perguntava sobre os estereótipos femininos.
    A peça parece ser ótima mesmo! Para os paulistas é um programa imperdível! Beijos!

  10. Bruna Bueno

    eu vi falar sobre essa peça na televisao mais nao assisti sobre oque si tratava me pareceu uma peça bem bacana cheia de boas cenas

  11. Carolina Monteiro

    Olá! Já assisti essa peça e gostei bastante. Estava bem curiosa para assistir porque já havia lido bastante sobre. Gostei muito da sua reflexão. Consegui perceber detalhes que não tinha notado.
    Um grande beijo!

    http://www.brincandodeolivia.com

  12. Rebeca

    Tati, antes de mais nada eu preciso dizer que você tem o dom pra falar sobre arte. Eu nunca ouvi falar de “Um Bonde Chamado Desejo” e, mesmo que não seja o foco do post, eu fiquei curiosa. Você consegue chamar atenção para algo que o leitor nem espera. Well done. Quanto a peça “Por isso eu fui embora” queria saber como faz quando a gente quer ir mas mora fora HAHAHA. Eu entendo porque você não curte personagens bêbados (HAHA) Sabe, eu sempre tive pra mim que personagens baseados em fugas como alcool ou drogas ou adultério ou qualquer tema clichê na literatura eram persoangens fracos e que não conseguiriam chamar a minha atenção. Talvez eu cresci traumatizada assistindo a Globo discorrer sobre alcoolismo de uma forma tão morna, que eu te entendo. Fiquei realmente curiosa quanto a peça e também quanto ao elenco cantando Sound of Silence (será que só esse pedaço eu acho no Youtube?). Parabéns pelo post e pela forma que você se expressa. Beijo

  13. Livia Pinheiro

    Fiquei bem interessada por esta peça…Parece ser envolvente e prender a atençao. Parabéns pelo post e até a próxima.

  14. Dianny Silva

    Uau, só com essa resenha já fiquei curiosa. Parece bem interessante. Já quero ver. Bjão e parabéns pelo blog.

  15. Amanda Moresco

    Amo personagens assim hahahaha elas carregam grande parte de mim hahaha adorei essa peça <3

  16. Simone Benvindo

    Bem que essa peça podia vir para cá. Fiquei animada e curiosa para ver. Adorei saber mais.
    Charme-se

  17. Analia Menezes

    o joca tem falado tanto dessa peça no video show que deu ate vontade de assistir, sua resenha foi perfeita.
    beijos

  18. Juliana Machado

    Tati, primeiro parabéns pela resenha. Bem detalhada, instigante e com as informações precisas. Segundo parabéns pelo blog, gostei muito da concepção, layout e seus conteúdos! Bjus

  19. Erika Monteiro

    Oi Tati, tudo bem? Cada dia mais encantada com seu blog. Amo o jeito como você mostra suas experiências. Sou completamente apaixonada por peças de teatro e achei incrível essa que indicou. Com certeza algumas personagens “bêbadas” são bem clichês, mas temos sempre a esperança delas serem bem trabalhadas pelo diretor. Não conheço nenhuma das duas histórias que citou mas fiquei bem curiosa e já anotei pra ver em breve. Um bonde chamado desejo já foi citado numa série e desde então quis ler a história. Agora tenho mais um motivo. Beijos, Érika =^.^=

  20. Karoline Krahl

    Sou apaixonada por teatro, apesar de ultimamente estar indo pouco. Adorei a sua resenha, o jeito como contou sobre. Fiquei bastante curiosa em ver.

  21. Rebeca

    Eu concordo quanto a personagens vazios, detesto mulheres que estão nos filmes e peças só para serem ess estereótipo que você descreveu.
    Não sei se gostaria dessa peça tanto quanto você, um homem infiel, posto como o incompreendido e não sei o que mais lá procurando o amor da sua vida nos bares, não me agrada. Eu provavelmente ia ficar a peça toda pensando na filha da putagem que isso é com sua esposa. Pontos de vista, né?
    Adorei a forma como você escreve.
    Mil beijos

    • tatiaponte

      Ahahah, oi Rebeca! Pois é, também pensei isso…Mas o legal são os papos cabeça, sabe? Enfim, questão de gosto!
      Beijão!

  22. Isabella Proença

    Nossa, que interessante! Já fui ao teatro algumas vezes, mas a maior parte das pessoas que assisti eram bem leves, de comédia romântica. Fiquei curiosa para saber o desfecho da história, se estivesse em São Paulo certamente assistiria. Será que haverá alguma temporada no Rio de Janeiro?

    Me chama de Bella

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