Tati Aponte

“Malhação – Viva a Diferença” e a teledramaturgia adolescente

Uma coisa que sempre me incomodou era como a televisão aberta brasileira pouco se empenhava em produzir um bom conteúdo para o público adolescente.

Considerando que a TV brasileira não deixa nada a desejar se comparada com emissoras estrangeiras, e que temos em nosso país a segunda maior emissora de televisão do mundo (Rede Globo), era no mínimo estranho que não houvesse nenhum programa que fosse “OK” destinado ao público adolescente.

Muitos aqui vão me dizer que não vêm mais televisão, que só assistem séries no Netflix e blá blá bla, mas eu já falei em outro post da relevância que a TV tem na sociedade brasileira, então minha opinião é clara e cristalina.

Se você só assiste  Netflix e há muito tempo não vê TV, eu ainda não tenho minha opinião sobre você. Por um lado, fico feliz por você ter opções para se entreter e consumir outros produtos audiovisuais, mas por outro lado, fico triste ver que nossos produtos nacionais, nossas histórias, roteiristas, atores e tantos outros profissionais estão sendo trocados por estrangeiros que não possuem qualquer vínculo com a cultura brasileira.

MTV E “CONFISSÕES DE ADOLESCENTE” MARCARAM A DÉCADA DE 90 E ANOS 2000

Pois bem, voltando ao tema do post, tirando alguns programas que a MTV fazia quando ela ainda era do Grupo Abril e, ao menos em São Paulo, era disponibilizada na TV aberta, nada mais de interessante foi feito para este público. Já a teledramaturgia adolescente ficou órfã desde que pararam de gravar Confissões de Adolescente“, um programa fantástico criado pelo Daniel Filho e pela Maria Mariana, produzido e veiculado pela TV Cultura no início dos anos 90.  

A Globo até tinha uma boa intenção com a Malhação, mas no ar desde 1995 a fórmula estava desgastada, uó, cheia de histórias clichês chatas. Eu estava desiludida mesmo com o rumo que este segmento estava tomando.

Lembro que no ano passado eu estava fazendo um curso de atuação para televisão quando soubemos que a nova temporada da Malhação ia ser gravada aqui em São Paulo…foi um corre enorme de amigos para fazer testes e eu ficava me perguntando: ” Será que esta novela, tão batida e requentada vai ficar melhor só por mudar de cidade?”. Esperei o tempo para ver o que o futuro reservava.

Um ano se passou e a nova novelinha entrou no ar e algumas mudanças , como ter o Cao Hamburger como autor desta temporada, imprimiu um novo e surpreendente fôlego para a novela. Eu assisto alguns capítulos e posso dizer, com convicção, que finalmente se dedicaram a fazer uma coisa boa para o público adolescente.

Além de ter um texto verossímil, o Cao Hamburger tem um talento absurdo para falar com públicos mais novos. 

Em uma temporada e com cinco meninas se revezando no protagonismo da série, a novelinha está tratando de temas como racismo, autismo, gravidez na adolescência, desigualdade social, problema de autoestima, padrões de beleza de uma maneira muito interessante. Lembra um pouco o “Confissões de Adolescente”, com suas ressalvas, é claro.

5 MENINAS COM SEUS PRÓPRIOS CONFLITOS

Algumas semanas atrás uma das protagonistas estava sofrendo por se achar gorda.  Keyla, uma menina que esta cheinha por ter acabado de ter tido filho, estava tomando um remédio bem forte para emagrecer e , claro, teve complicações sérias por ter ingerido a medicação de maneira equivocada. Eu sou uma pessoa que passei exatamente por isso na minha adolescência (o remédio, gente…nada de filhotes por aqui) e achei que o tema foi abordado de uma forma incrível pela novela.

Fora isso, temos outras personagens como a Ellen, negra que vive na periferia e sofre um racismo absurdo. Em resumo, ela é boa aluna e, por isso, consegue um estágio em um colégio de elite de São Paulo, mas é óbvio que tem umas mães que acham que a influência da menina é ruim para os outros alunos. Agora, vem cá, isso acontece ou não? Eu vi isso na faculdade, inclusive!

Fora Keyla e Elle, a temporada conta com Benê, uma menina que tem um autismo num nível bem sutil mas não sabe disso, Lica, a menina rica que tem problemas que não são de ordem financeira, mas são  humanos que angustiam qualquer adolescente e Tina, uma mestiça que sofre com a pressão insuportável da mãe para manter as tradições da família – como fazer medicina e se casar com um japonês.

Olha, eu realmente fiquei feliz e achei que deram um salto qualitativo nessa nova Malhação. Algumas atrizes mais novas ainda precisam melhorar artisticamente, mas são suficientes para desempenhar os papéis que fazem, já o elenco adulto está muito afinado – Lúcio Mauro Filho, Marcelo Antony, Malu Galli – são atores do alto escalão da Globo e fazem toda a diferença na composição do elenco. Recomendo muito esta temporada.

Ah, e se você vê muito Netflix, não fique bravo/brava comigo…Eu sou uma defensora das produções audiovisuais, gente…. Mas você pode deixar um pouco “13 reasons why” de lado e pesquisar por “Confissões de Adolescente” no youtube,  eu tenho certeza que você não vai se arrepender!

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