Tati Aponte

Com “Dilúvio” finalmente eu conheci o trabalho de Gerald Thomas

Gerald Thomas é um diretor de teatro muito conhecido e bastante controverso.

Ainda que ele possua um magnífico currículo teatral, tendo trabalhado com atores de elevado quilate e recebido prêmios e menções honrosas de artistas do mais alto escalão, eu confesso que estava muito hesitante em conhecer seu trabalho.

Isto em razão das polêmicas anteriores que o diretor já se envolveu. Não falarei delas aqui, quem quiser que dê um Google!

Roberto Setton/Divulgação

Mas fato é que eu estava com esta dúvida dentro de mim, sim! E não tenho problema nenhum em admitir isso, ué!

Sinais dos novos tempos? Onde nos sentimos  “coniventes” com a conduta inadequada de alguns por assistir uma peça de teatro? Ou uma novela, filme, etc?

Ou dá pra curtir uma peça aproveitando seu conteúdo, sem tirar a responsabilidade da pessoa pelos erros cometidos?

Fui pela segunda via, pois eu sabia que precisava conhecer o trabalho do diretor.

E lá fui eu ao Sesc Consolação assistir “Dilúvio“.

Em “Dilúvio” o excesso de informação e a “fake news” culminam na Terceira Guerra Mundial

Roberto Setton/Divulgação

Nas histórias religiosas e mitológicas, o dilúvio é o castigo divino imposto a uma civilização para destruir o mau do mundo.

A água, então, vem purificar o que estava contaminado, dando início a uma nova sociedade, uma nova era.

A peça de Gerald Thomas parece implorar por uma nova catástrofe, pois se ela não vier pelos meios divinos, certamente nós vamos nos destruir.

Em off diz o autor:

“Temos mais três anos pela frente. Três anos. Little Rocket Man.”

“Foi assim que começou a Terceira Guerra Mundial. Ele pegou o iPhone e tuitou: ‘sad’ , ‘bad’ , ‘fire’. E nesse ‘fire’, leu-se ‘fake news‘. E, nesse ‘fake news‘, explodiu-se tudo”.

Estas frases são repetidas várias vezes ao longo da peça, fazendo uma alusão não só ao excesso de informação do mundo moderno, como da sua repetição excessiva nos meios de comunicação e redes sociais.

Isso promove, na sociedade, um estado de pânico permanente que, inclusive, gera uma economia particular.

A protagonista da peça é uma figura interessante.

Roberto Setton/Divulgação

Uma espécie de Santa DesGoogle das DesGraças, que quer deixar claro a todos o momento que vivemos: um oásis imaginário, informação em excesso, empilhada em escombros e deixada a apodrecer, num mundo onde se vivem conflitos de guerra, se anunciam apocalipses e, acima de tudo, se geram notícias falsas.

“Para tudo, hoje, existe uma resposta rápida. O Google é santificado por essa geração. Mas nada fica na cabeça deles, nada se fixa. Ninguém mais lê um livro sequer”, conclui Thomas.

Ufa! Se a temática abordada na peça é recente e profunda, a maneira como o diretor resolveu encená-la é mais disruptiva ainda!

“Isso não é teatro!”

Roberto Setton/Divulgação

pouco texto em “Dilúvio“, mas há muita música, muitos gestos e corpos nus.

A peça exige e muita reflexão de quem a assiste, além de um entendimento sobre nu artístico que em nada tem a ver com o nu de apelo pornográfico presente na grande mídia e que, incrivelmente, é mais aceito pela população em geral.

Por isso mesmo “isso não é teatro!” seja uma frase plenamente possível de se ouvir ao final de uma sessão de Dilúvio, proferida pelo público de classe média,  acostumado com as peças comerciais e musicais em cartaz em São Paulo.

Geralmente, artistas politicamente engajados entendem que o nu, gestos e movimentos são tão ou mais importantes que um texto, pois questionam o intelectualismo das artes tirando das peças o peso das palavras.

É uma forma muito interessante destes artistas se posicionarem! Mas é imprescindível que aquele que assiste a peça concorde com este tipo de interpretação.

Em “Dilúvio” cabe a você, espectador não passivo, chegar às  suas próprias conclusões sobre o tema proposto.

Portanto, esqueçam as montagens lineares, bonitinhas, recatadas e do lar presentes nas peças convencionais.

Aqui há nu, há palavrão, há cenas brutas intercaladas com um balé aéreo que é pura delicadeza e ternura.

Definitivamente, não é uma peça pra qualquer um, mas é uma experiência interessantíssima de se ter!

Tenha sensibilidade e seja honesto consigo e veja se tem estrutura para conhecer a peça, ok?

Recado dado!

Beijos!


Dilúvio

QUANDO qui. a sáb., às 21h, dom., às 18h; até 17/12
ONDE Sesc Consolação, r. Dr. Vila Nova, 245, tel. (11) 3234-3000
QUANTO R$ 12 a R$ 40
CLASSIFICAÇÃO 18 anos

Ficha técnica

Autor e Diretor: Gerald Thomas

Coreografia Aérea e Direção: Lisa Giobbi

Coreógrafa Associada: Julia Wilkins

Elenco: Maria de Lima, Ana Gabi, Beatrice Sayd e Isabella Lemos

Performance Aérea: Lisa Giobbi e Julia Wilkins

Coreografia e Designer de Movimento (solo): Julia Wilkins

Preparação Corporal: Daniella Visco

Assistente de Direção: André Bortolanza

Desenho de Luz: Wagner Pinto

Co-criação da Trilha e Compositor: Mauro Hezê

Gravação e Voz em “Gimme Shelter” e “Out of Control”: Vivalda Dula

Desenho, Pintura e Cenografia: Gerald Thomas

Direção de Produção: Dora Leão

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Fotos de Divulgação: Roberto Setton

Programação Visual: Gil Vicente

Design Produção e Administração: PLATÔ produções

Realização: SESC SP

Serviço Autor e Diretor: Gerald Thomas

Coreografia Aérea e Direção: Lisa Giobbi

Coreógrafa Associada: Julia Wilkins

Elenco: Maria de Lima, Ana Gabi, Beatrice Sayd e Isabella Lemos

Performance Aérea: Lisa Giobbi e Julia Wilkins

Coreografia e Designer de Movimento (solo): Julia Wilkins

 

 

 

 

 

 

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1 Comentário:Com “Dilúvio” finalmente eu conheci o trabalho de Gerald Thomas
  1. Maria Alice Dias

    Recado dado….muito bem dado
    … Parabéns a todos…Preciso ver novamente….

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